A pé, de bike e de caiaque: aos 60 anos, voluntário percorre 2,2 mil km da supertrilha que dá a volta no RJ em 4 meses

  • 09/09/2026
(Foto: Reprodução)
Alguns dos lugares por onde a trilha Volta ao Rio passa Reprodução Foram 127 dias entre montanhas, serras, rios, lagoas, praias e cidades do Estado do Rio de Janeiro. Aos 60 anos, o voluntário Luiz Aragão percorreu 2,2 mil quilômetros a pé, de bicicleta e de caiaque para testar, pela primeira vez, o traçado e a logística da Volta ao Rio, supertrilha de 3,5 mil km que conecta unidades de conservação e diferentes regiões fluminenses. Aragão começou e terminou a expedição no Parque Nacional da Tijuca, na Zona Sul do Rio. Mineiro que vive em Taubaté (SP), ele partiu do Cristo Redentor em 1º de maio e passou pouco mais de 4 meses percorrendo o trajeto proposto para a trilha. A expedição teve como objetivo colocar à prova um percurso que, até então, havia sido planejado principalmente com base em mapas. Ao longo da viagem, Luiz verificou como os diferentes tipos de deslocamento poderiam ser integrados e reuniu informações que poderão ajudar, no futuro, quem quiser percorrer a Volta ao Rio. Luiz Aragão foi o primeiro a percorrer a supertrilha do RJ Divulgação Ele registrou, por exemplo, o tempo de deslocamento e identificou pontos de hospedagem, alimentação e transporte, além da disponibilidade de wi-fi, banheiros e aluguel de caiaques. Também avaliou as possibilidades de acampamento e outros serviços de apoio ao longo do trajeto. ‘Voltei a ter esperança’ Antes de começar, uma das preocupações de Luiz era não saber como seria recebido pelas pessoas durante a viagem. A experiência, no entanto, acabou sendo uma das maiores surpresas da expedição. Segundo ele, em diferentes pontos do estado, moradores ofereceram ajuda, refeições e até abriram as portas de casa para recebê-lo, mesmo sem conhecê-lo. “Ao olhar nos olhos das pessoas mais simples, ao ver quem me abriu a porta de casa sem nem me conhecer, eu voltei a ter esperança. Volto dessa caminhada muito mais otimista em relação ao ser humano”, afirmou. Cume da Pedra do Bisco em Rio Claro Divulgação Aos 60 anos, Luiz diz que não se considera um trilheiro profissional. Para se manter em forma, faz exercícios em academia, mas acumula anos de experiência em caminhadas de longa distância e planejamento de viagens com mochila e autonomia para acampar. Ao longo da expedição, Luiz passou por ambientes bastante diferentes. Em uma mesma jornada, atravessou montanhas, serras, vales, áreas rurais, florestas, rios, lagoas, praias e cidades. As mudanças entre a Região Serrana, o litoral norte, a Serra da Mantiqueira, o Vale do Paraíba, a Serra da Bocaina, a Costa Verde e a capital foram algumas das experiências que mais o marcaram. “Eu sou mineiro, moro em São Paulo e, antes da expedição, conhecia principalmente a capital. Depois de atravessar o estado caminhando, pedalando e remando, passei a enxergá-lo de uma maneira completamente diferente”, contou. A diversidade também apareceu na própria forma de percorrer a trilha. A Volta ao Rio é uma rota multimodal, que reúne trechos de caminhada, bicicleta e navegação. Cinco dias remando sozinho Se caminhar longas distâncias já fazia parte da experiência de Luiz, a navegação foi um dos principais desafios da viagem. Ele passou 5 dias remando sozinho pelo Rio Imbé e por sistemas lagunares até chegar ao litoral. Eram trechos que conhecia apenas por imagens de satélite e que ainda não haviam sido testados integralmente como rota. Luiz Aragão passou dias remando sozinho Divulgação A cada dia, era preciso descobrir se o planejamento feito antes da viagem funcionaria na prática. “Entrar em um rio ainda não testado integralmente como rota e descobrir, dia após dia, se o planejamento funcionaria exigiu muita atenção, experiência e equilíbrio emocional”, relatou. Quando finalmente chegou ao litoral, a sensação foi de realização por ter conseguido concluir o trecho como planejado. O maior desafio físico, segundo ele, apareceu sobre 2 rodas. Foi na subida entre o Vale do Paraíba e as partes mais altas da Serra da Mantiqueira, nas proximidades do Parque Nacional do Itatiaia. O desnível tornou o trecho especialmente exigente. Apesar dos desafios, Luiz não sofreu acidentes durante os mais de 4 meses de expedição nem teve problemas com animais silvestres. Em algumas regiões, chegou a observar pegadas de grandes felinos, mas não encontrou onças. Camping selvagem na Região Serrana Divulgação O que é a Volta ao Rio A Volta ao Rio é uma trilha de longo curso de 3.500 km que conecta diferentes caminhos, incluindo trilhas já conhecidas, rotas para bicicleta e trechos navegáveis. A proposta é formar uma grande rede que passe por unidades de conservação federais, estaduais e municipais e conecte paisagens de diferentes regiões do estado. O circuito inclui áreas como os parques nacionais da Serra dos Órgãos, Itatiaia e Serra da Bocaina, além do Parque Estadual dos Três Picos. Ao todo, a rota pretende integrar quase 100 unidades de conservação. Também passa por cartões-postais como o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar. A ideia é que a trilha não precise ser percorrida inteira. Como é formada pela conexão de dezenas de trajetos locais e regionais, cada pessoa poderá escolher etapas de acordo com seu tempo, experiência e condicionamento. Mapa da Trilha Volta ao Rio Divulgação Assim, é possível curtir as baixas temperaturas do Parque Nacional do Itatiaia e aproveitar o sol quente da Região dos Lagos. Também estão nos 3.500 km a Travessia Petrópolis-Teresópolis, pelo Parque Nacional da Serra dos Órgãos; um giro de remo pelo Rio Paraíba do Sul; e um passeio pelo Parque Nacional da Serra da Bocaina até Paraty. “A Volta ao Rio é a junção de várias trilhas que hoje pertencem à Rede Brasileira de Trilhas — no final de uma começa a outra”, explicou Hugo de Castro Pereira, coordenador do projeto. “A gente entende que será a trilha mais importante do mundo.” 🟩O g1 Rio está no GloboPop, o novo aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, disponível gratuitamente no seu celular. Lá no app, você pode seguir o palco do g1 Rio para não perder nenhum detalhe. Baixe o GloboPop. O percurso inclui ainda o Cristo Redentor, que fica no Parque Nacional da Tijuca, e o Pão de Açúcar, ícones mundialmente conhecidos. Ao todo, seriam 90 dias para ver tudo. O Expedição Rio fez um programa só sobre a Transcarioca. Relembre: Expedição Rio, episódio 3: Trilha Transcarioca Diferentes níveis de dificuldade Embora não haja, nos 3.500 km, paredões de escalada, existem trechos na Volta que exigem preparo e técnica. “A gente passa pelo Caminho da Serra do Mar, que começa ali na subida de Magé, pelo Caminho do Ouro, e atravessa toda a Serra dos Órgãos, um trecho alto”, detalha Hugo. “Tem um ponto mais difícil, uma ‘escalaminhada’ chamada Cavalinho, entre Petrópolis e Teresópolis”, citou. Hugo ressalta que há muitos trechos para iniciantes. “As partes de praia são fáceis. Tem a Rota Cabista, em Arraial do Cabo, que é maravilhosa”, disse. “Grande parte da trilha é fácil”, emendou. Trilhas como proteção ambiental Para Luiz, a experiência também mostrou que uma grande trilha pode funcionar como instrumento de conservação. Durante o percurso, ele percebeu a importância da presença de pessoas nas áreas naturais e defende que o uso organizado das trilhas pode ajudar na proteção das unidades de conservação. “Onde não tem trilha e presença de pessoas, acontecem ilícitos como caça, desmatamento e gado solto. Onde a trilha passa e é utilizada, os ilícitos somem.” A proposta da Volta ao Rio é justamente conectar áreas protegidas e criar corredores entre diferentes regiões. Segundo o projeto, a estruturação da trilha também pode estimular turismo e geração de renda para comunidades locais. Durante o mapeamento, foram identificados pequenos produtores rurais, pousadas comunitárias, sitiantes e condutores de visitantes que podem integrar uma rede de apoio aos futuros trilheiros. Próximos passos Agora, as informações coletadas nos quatro meses de expedição serão organizadas para orientar ajustes no traçado e na logística da Volta ao Rio. Entre os próximos passos estão a validação do percurso com municípios, gestores de unidades de conservação, organizações responsáveis pelas trilhas e comunidades locais. O projeto também prevê avanços em sinalização, manejo, segurança, comunicação e governança. A ideia é realizar seminários regionais para aproximar os municípios e discutir conjuntamente a implantação do circuito. Outro objetivo é transformar a Volta ao Rio em uma política pública reconhecida pelo estado, integrando áreas como meio ambiente, turismo, esporte, cultura e desenvolvimento regional. O projeto também busca formas de financiamento para implantar a trilha de maneira definitiva. A expectativa dos organizadores é que a trilha ajude a distribuir o turismo para além da capital e de destinos já tradicionais, levando visitantes e renda para outras regiões do estado. A meta final é conectar os 92 municípios do Rio de Janeiro por meio dessa rede de trilhas. A expedição de Luiz, que mobilizou mais de 50 cidades, foi o primeiro grande teste desse projeto. Para quem pretende fazer parte do percurso, Luiz recomenda começar pequeno. Ele diz que iniciantes devem evitar entrar sozinhos em rios desconhecidos ou fazer travessias de vários dias sem preparação. A orientação é começar com trilhas de um dia, depois avançar para percursos de dois ou três dias, de preferência acompanhado de pessoas mais experientes. Também é preciso verificar as condições do tempo, as regras das unidades de conservação e manter práticas de mínimo impacto, sem deixar lixo ou danificar a vegetação. Veja fotos de pontos da trilha: Trilha Volta ao Rio: Serra dos Órgãos Divulgação Trilha Volta ao Rio: Arraial do Cabo Divulgação Trilha Volta ao Rio: Monumento Natural Estadual da Serra da Maria Comprida Divulgação Trilha Volta ao Rio: Vale do Café Divulgação Trilha Volta ao Rio: Parque Nacional da Bocaina Divulgação

FONTE: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/09/09/voluntario-percorre-supertrilha-que-da-a-volta-no-rj.ghtml


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